Covid-19: como o vírus saltou de morcegos para humanos

Pandemias como a que estamos vivendo, infelizmente, já eram esperadas por autoridades e cientistas. Tudo por causa do estilo de vida contemporâneo. A destruição de habitats naturais, manuseio de carne sem os protocolos de higiene, consumo de animais silvestres, criação intensiva de animais domésticos e mudanças climáticas são apontados como os principais causadores de pandemias, epidemias e surtos epidêmicos no mundo.

E a fórmula é simples: quanto mais nos aproximamos de áreas preservadas, mais entramos em contato com patógenos nunca antes vistos.

É aí que surge o fenômeno conhecido como spillover (termo em inglês que pode ser traduzido como transbordamento) que torna-se cada vez mais frequente, e aqui vamos entender o porquê.

O spillover é usado em Ecologia para dizer que um vírus ou micróbio conseguiu se adaptar e ir de um hospedeiro para outro. E foi assim, migrando dos morcegos para os seres humanos (tendo, talvez, os pangolins como intermediários) que o SARS-CoV-2 atingiu esses números impressionantes.

Ao que tudo indica, o SARS-CoV-2, vírus causador da doença, passou de animais para pessoas a partir do mercado central de Wuhan, na China, e se espalhou para vários países. O aumento no número de casos da doença e a disseminação global fizeram a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar pandemia de coronavírus em 11 de março.

Transpondo barreiras

Para que doenças migrem de uma espécie a outra, um patógeno precisa superar uma série de peneiras, como por exemplo, a quantidade de vírus disponível ao hospedeiro (também conhecido como pressão do patógeno) e o comportamento entre humano e vetor, que determina probabilidade, rota e dose de exposição.

“Se temos um maior contato com animais – seja por meio da caça ou da criação – e não tomamos as devidas precauções sanitárias, os patógenos vencem mais uma barreira também”, afirma Marco Mello, biólogo e professor do Instituto de Biociências (IB) da USP.

“O spillover é um fenômeno frequente na natureza, mas a migração de animais e humanos é mais rara”, explica Mello. “Febre amarela, ebola e HIV são exemplos de spillover e que já causaram muitas mortes.”

No caso do SARS-CoV-2, as evidências indicam que o marco zero da pandemia foi o mercado de animais vivos em Wuhan, na China. “No local, temos a mistura de animal doméstico com animal silvestre caçado, presença de seres humanos, todos em uma densidade altíssima e com péssimas condições de higiene”, pontua Mello.

Em busca de culpados

Diante de surtos, epidemias ou pandemias, é relativamente comum assistirmos a aumento de agressões e mortes de animais por pessoas que temem ser infectadas. Foi assim durante o surto de febre amarela no Brasil, em 2018. Residentes de áreas rurais passaram a matar macacos, com medo de contágio.

Vale lembrar que macacos não transmitem a doença. Pelo contrário, alertam as autoridades para o reaparecimento do vírus nessas regiões.

Com a covid-19, os vilões da vez são os morcegos. De fato, já se sabe há décadas da ligação entre eles e vários vírus emergentes, como o da raiva e de outros coronavírus. Mas morcegos e humanos são mamíferos que possuem receptores análogos e que permitem que o coronavírus consiga encaixar na célula e iniciar o processo de replicação.

Por outro lado, esse animal é importante para o equilíbrio do planeta. São conhecidas 1.411 espécies de morcegos, sendo que 70% delas comem insetos, mosquitos, gafanhotos e mariposas; polinizam mais de 500 espécies de plantas só na região neotropical (equivalente a América Latina); regeneram florestas; e, por comerem insetos, são essenciais no controle de pragas agrícolas.

Mello aponta outra contribuição dos morcegos para a biomimética, área que estuda, na natureza, as estruturas biológicas e suas funções e usa esse conhecimento no desenvolvimento de novas tecnologias. “Os remédios anti-coagulantes foram inspirados nos morcegos”, enfatiza Mello. “A saliva do morcego contém uma substância que faz com que o animal sangre mais, conferindo ao hematófago consumir mais sangue em um tempo menor, evitando que a presa o ataque.”

Fora isso, os morcegos alimentam os ecossistemas das cavernas ondem vivem. “Se ninguém os incomodar, eles não fazem mal algum”, diz o biólogo. (Por Fabiana Mariz, do Jornal da USP; Arte de Beatriz Abdalla/Jornal da USP sobre fotos de Peter Neumann/Unsplash e Pixabay)