Como a Covid-19 se espalha em ambientes fechados?

Resumo do conteúdo

  • Veja os mapas de contágio em restaurantes e escritórios
  • Equação "dose X tempo de exposição" é crucial na infecção

Existem dois fatores importantes que devem ser levados em consideração para entender o contágio pela Covid-19 e proteger-se nos momentos em que é preciso flexibilizar o isolamento: o tempo de exposição ao vírus e a quantidade de vírus a que a pessoa fica exposta. O que isso quer dizer? Que para contaminar-se pelo novo coronavírus bastariam cinco minutos de conversa com alguém infectado ou um espirro próximo de você.

Entender de que forma o contágio ocorre é crucial para evitar a disseminação da doença, já que cientistas acreditam que as medidas de distanciamento social e proteção podem seguir sendo adotadas pelos próximos meses (como usar máscaras e manter uma distância de mais de 1 metro das pessoas, além de evitar ambientes com aglomerações).

A médica pneumologista Leticia Kawano Dourado explica que a chave para entender como as pessoas estão contraindo a Covid-19 está na equação “dose X tempo”.

“A partir de estudos sobre influenza, estima-se que, na tosse e no espirro, a emissão de partículas virais no ambiente seja 10 milhões de vezes maior do que quando apenas respiramos. Na fala, a emissão de partículas virais é 10 vezes maior que na respiração comum, quando emitimos em média 20 partículas virais por minuto. Estima-se que seja necessário uma carga mínima de 1.000 partículas virais para haver contaminação efetiva”, diz a especialista. “Isso quer dizer, por exemplo, 5 minutos de conversa cara a cara com alguém contaminado ou apenas um espirro ou tosse próximos” são suficientes, afirma a pneumologista em seu site.

Onde o risco de infecção pela Covid-19 é maior?

O maior risco de contágio é em casa, durante a convivência diária, especialmente se há pessoas no grupo familiar que saem para trabalhar diariamente. Neste caso, o ideal é evitar o convívio entre integrantes do grupo de risco e as pessoas que precisam flexibilizar o isolamento social.

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Fora de casa, o risco de infecção é maior em ambientes fechados com alta densidade de pessoas. Vale para escritórios, salas de conferência e até mesmo eventos sociais com grande número de participantes (como festas, aniversários, casamentos e funerais, por exemplo).

Escritório: Um mapeamento realizado em uma empresa de call center na Coreia do Sul é um exemplo de como a Covid-19 se espalha rapidamente. O jornal espanhol El País cita os quatro fatores decisivos para a ampliação do contágio: contatos múltiplos, próximos e prolongados em um espaço fechado.

Os funcionários do call center eram agrupados em grandes mesas de trabalho; cada mesa era ocupada por 13 funcionários. No total, 216 pessoas trabalhavam no andar, das quais 94 foram infectadas. A maioria dos pacientes da empresa ficava no mesmo salão, do mesmo lado do edifício. Em algumas mesas com 13 pessoas, até nove funcionários chegaram a pegar Covid-19. O gráfico do estudo mostra as posições em que as pessoas infectadas trabalhavam. O estudo ressalta ainda que o surto ocorreu a partir de 1 caso.

Apesar do uso de áreas compartilhadas dentro do edifício, como os elevadores e o saguão de entrada, o contágio foi maior no ambiente de trabalho onde as pessoas ficaram expostas durante maior tempo, com maior interação, em local fechado.

Restaurante: Outro estudo mapeou a contaminação dentro de um restaurante durante o jantar de Ano Novo Chinês, em janeiro, na cidade chinesa de Guangzhou. Neste caso, além do tempo de exposição e da interação social, a ventilação inadequada ampliou o risco de contágio da Covid-19. N caso do restaurante estudado, a direção do fluxo do ar condicionado foi crucial para a transmissão do vírus.

Na noite do jantar, dez pessoas de três famílias diferentes foram contaminadas pelo vírus. Uma pessoa de uma das das famílias tinha acabado de passar pela cidade de Wuhan, onde os primeiros casos da Covid-19 foram registrados. No total, cerca de 90 pessoas comeram no restaurante na noite de Ano Novo, e foram atendidas por oito garçons.

Na mesma noite, após o jantar, a pessoa que viajou para Wuhan teve sintomas de Covid e foi atendida no hospital. Nas duas semanas seguintes, outras nove pessoas que estavam na mesma mesa do paciente ou nas duas mesas ao redor foram diagnosticadas com Covid. Nenhum outro cliente do restaurante foi contaminado.

A distância entre cada mesa era de cerca de 1 metro. Os cientistas acreditam que o ar condicionado, que recirculava o ar entre as três mesas, foi fundamental para espalhar o vírus a partir do paciente contaminado que veio de Wuhan (representado no gráfico como A1).

No ônibus: Pesquisadores chineses e norte-americanos mapearam o contágio dentro de dois ônibus de peregrinos budistas que seguiam para um ritual. Os grupos permaneceram dentro dos veículos por cerca de 100 minutos (contando o tempo de ida e volta). Uma mulher que tinha viajado para Wuhan estava em um dos veículos. No dia seguinte ao da viagem, ela começou a apresentar sintomas de Covid-19.

Os ônibus tinham cerca de 60 passageiros cada — um dos lados tinha três assentos por fileira. Cada fileira tinha uma distância de apenas 75 centímetros umas das outras. Todos os passageiros dos dois ônibus participaram do ritual. Mas 23 pessoas que viajaram no mesmo veículo que a mulher infectada contraíram a doença. O ar condicionado do ônibus estava com o sistema de recirculação ativado, facilitando a disseminação do vírus dentro do veículo.

E os supermercados?

A médica pneumologista Leticia Kawano explica que, para saber se o supermercado representa riscos, é preciso levar em conta o tempo que você passará fazendo compras e o número de clientes dentro da loja. Lembre-se de que o risco não é só por meio das gotículas inaladas, mas também pelo contato com as superfícies contaminadas — por isso é importante usar máscara, manter as mãos higienizadas, com álcool gel 70%, e evitar levar as mãos ao rosto.

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